terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Fabricados em série


Vocês, que se julgam tão peculiares, essas palavrinhas são para vocês. Nenhum problema em acreditarem ser especiais. Especiais todos somos.  Mas definem-se indefiníveis. Dizem, escrevem, vomitam boca afora que negam as convenções, que são diferentes. Por quê? Porque bebem, se drogam, se cortam, fazem sexo a dois, a três, a quatro, beijam pessoas do mesmo sexo, leem frases de Nietzsche, Lispector, Bukowski e se identificam com algumas? Por quê? Porque ouvem rock’n roll e (uau!) acham que são a própria personificação de Born to be Wild? Viram na internet fotos glamourosas de pessoas que se cortam e brincam de se cortar também. Declaram-se bipolares porque são de lua.
Desculpe-me dizer assim na cara de vocês, agressivamente, porém usando palavras condescendentes: vocês são tão coitadinhos. Vocês são todos tão iguaizinhos. Vocês foram feitos em série. Não são a negação de nada. Nada de inovador há em vocês. Nada de complexo ou dúbio. São produtinhos mal acabados do fim do século XX e o retrato escrachado da rebeldia de butique do século XXI. Não é que vocês não são nada. Vocês apenas são todos iguais.  

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O pulso ainda pulsa



Cansado, calado, distorcido, desarmado, machucado.
Enredado em correntes,
preso.
Mas pulsa.

"Em toda a desordem e ruína horripilante do mundo e da imaginação humana, ainda há a vida. E a possibilidade de redenção através do mero vislumbre da terra, através da admiração; e nisso a coisa inteira pode ser redimida."
(Kerouac)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Muito menos estancar a dor


Lembrava-se do tempo em que a tristeza não era dilacerante. Uma tristeza calma, ela dizia, talvez até tranquila. E passava. Não derrubava como uma onda forte, mas tocava os pés como uma marolinha. Era assim que ela a descrevia, "tristeza do tipo nuvens leves, que não resistem aos ventos, então eu espero".
Hoje ela não espera mais porque nem se sabe o que deve passar. Não são mais nuvens, nem marolas, são tufões e tsunamis que não deixam nada no lugar. Ela fora de lugar. Ela balançando. Ela rodando descordenadamente num carrossel de cavalos de verdade. Cavalos ariscos. Não há mais o 'esperar passar'. Então ela grita, sapateia, esperneia e come. Come sem sentir o sabor, mal mastigando, empurrando, engolindo. E ela fuma, fuma, fuma, 1, 2, 3, 4, 5, 7, 70 x 7 cigarros de uma vez. Ela come o cigarro. Morde-o, abrindo-o para ver a substância tóxica se espalhar em suas mãos, como entranha de bicho morto. Hoje ela espanca o teclado, a cara, o espelho. Só não consegue espancar a dor. 

Once upon a piece

Nos cabelos, nas roupas, no lençol, no tapete... espalhadas, soltas, dispersas. Uma não se ligava à outra. Não formavam uma única linha que fizesse sentido. Voavam pelo quarto, esbarravam nos móveis, trombavam nas paredes. Mas ela foi obrigada a juntá-las e delas fazer alguma coisa, sob pena de cambalear pelo quarto e se espalhar pelo chão também.

Aquieta-te


Em algum momento você percebe que toda a sua tentativa de ficar em paz com as pessoas não precisava necessariamente passar pelo caminho de conviver com elas, ou mesmo de declarar-lhes perdão. Ou fingir que nada do que elas já lhe fizeram não causou nenhum mal.
O machucado passado pode até não mais doer. Pode ser ferida cicatrizada. Mas houve uma ferida e não houve reparação sincera por parte daquele que a causou. Então, por que lhe mostrar a cicatriz já quase cor de pele e sem quelóides? Por que expor cicatrizes quase transparentes àqueles que gostariam que elas ainda estivessem vertendo pus?

Like a Lady



"... num ar consciente, satisfeito, de quem acaba de resumir o mundo numa frase, começou a fumar o cigarro."
(Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Saying a little prayer for me


Que Deus ou qualquer coisa que o valha
me ajude a entender e amar meu ser/estar só.
Que minha solidão não me engula nem me escravize.
Que eu possa saudar a cama vazia pela manhã como quem saúda a liberdade recém conquistada após anos na prisão.
E que mesmo que ela não esteja vazia, eu possa olhar para o lado e dizer
'este não sou eu'
e depois de carinhos de bom dia, levantar,
olhar no espelho,
enxergar minhas pupilas e dizer
Bom dia! a você que sou eu.

calmo, claro, constante


Há música. Tenho sono.
Tenho sono com sonhar.
Estou num longínquo abandono
Sem me sentir nem pensar.
(Fernando Pessoa)

Upon my shoulders? Nevermore.


- Por que desperdiçar suas últimas horas correndo dentro da gaiola e negando que é um esquilo?
- Então não se importa mais?
-Eu me importo tanto que estou doente.
(Diálogo entre Faber e Montag - Fahrenheit 451)
É. A gente vai se importando demais. Cuidando demais. Dando idéias demais. Dando de comer a quem tem fome, mas não pediu. Ou pediu, mas não vem buscar. Aprendi a não ensinar. Eu aprendi que não dá pra cuidar da vida de todo mundo. Nem estou falando em "cuidar" num sentido pejorativo, de se meter. É cuidar mesmo, no bom sentido. Correr à primeira chamada. Responder ao primeiro toque. Incentivar. Não me importo mais, não demais. I don't wanna carry the world upon my shoulders anymore.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Inominável


O ato de escrever sobre meus transtornos de humor nunca foi algo pensado e bem analisado. Como quase tudo em minha vida. Foi instinto, impulso, ímpeto, desabafo. A dor ultrapassou a linha entre o privado e o público porque era grande demais. Dos diários pulou para as telas e para o mundo. Eu precisava saber que alguém estava lendo. Eu precisava saber que alguém estava sabendo, entende? Mas recuei muitas vezes, não registrei uma linha do tempo de minhas oscilações. O complicado é que, no caso de bipolares, temos mais vontade de escrever quando estamos deprimidos, mas eu queria também falar sobre meus períodos de remissão, aqueles momentos em que sei que estou no caminho certo e que tudo vai ficar bem.  Porém há uma espécie de superstição do inconsciente coletivo de que se compartilharmos as conquistas, os planos, as vitórias... Tudo pode dar errado. A velha história do olho gordo: não cante alto sua felicidade para não perde-la.
Mas hoje eu só queria lhe contar dos momentos bons e dizer que levar à sério um tratamento é difícil. Muito. Queria compartilhar as privações dos últimos dias e falar de como elas são duras, mas como só através delas é que percebi o quanto são necessárias.
No entanto, vou ficar quietinha. Não lhe darei os muitos e intermináveis detalhes. Vou deixando minhas marcas aqui e ali. Torcendo pelo melhor. Para mim e para você.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

por um pouco de tempo


Pela manhã ela sorri. Conversa, corre, começa. Toma xícaras intermináveis de café, fôlego e coragem. Sabe que terá pouco tempo, portanto - em desabalada carreira - joga o mundo dentro da bolsa e voa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Em meio ao martírio, viveu.



"Aquele que mais experimenta o martírio é dele que se poderá dizer: este, sim, este viveu."
(Clarice Lispector in: Morte de uma baleia - Clarice na cabeceira - crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2010)

Acabo de ler este trecho, de uma das crônicas de Clarice, no blog da Vanessa. E essa frase, essa simples e verdadeira frase de Clarice Lispector não poderia ser uma representação melhor dos dias que tenho vivido. Tenho experimentado o martírio. Mas também o deleite. Pois aquele que, em meio a um turbilhão de preocupações, consegue cumprir cada etapa de sua jornada, da jornada que escolheu para si mesmo ou que as circunstâncias lhe impuseram, pode apenas imaginar o quanto valem algumas horas (quiçá minutos) de um pouco de paz interior.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

marionete

Roubaram minha voz, minhas expressões, minha capacidade de decidir. Mover o globo ocular de um lado para o outro é um ato pensado, ponderado, feito vagarosamente. Teclar é entediante. Hesito diante de cada prosaico movimento, como se as decisões mais simples, aquelas que fazemos sem nem pensar, fossem decisões que mudariam drasticamente meu destino. palavras me fogem, então repito-as. não tenho sinônimos. só pontuo porque é assim que deve ser. os dedos pesam. e nada disso é figura de linguagem.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Nada menos do que perfeito



Acho que já escrevi tantos textos que tem a ver com essa música que não consigo nem me lembrar assim de cabeça. Meu próprio livro é fruto de anos sentindo-me como diz a letra:


Segui o caminho errado
Uma ou duas vezes
Cavei até conseguir sair

Decisões ruins
Tudo bem
Bem vindo à minha vida boba

Mal tratada,
Deslocada, mal compreendida
Mas isso não me parou

Errada,
Sempre em dúvida
Subestimada...


It's the old and same history... Deslocados, desencontrados, perdidos, errantes...
Mas como diz a personagem de Kirsten Dunst em O Sorriso de Monalisa, "nem todo errante é sem propósito".

E, no fim das contas, temos que olhar para o espelho e dizer:


Nunca, NUNCA se sinta
Como se fosse menos do que perfeito pra caralho!


Leia também:
De um jeito ou de outro...
Mesmo que seja bizarro
Posso existir? Assim, do jeito que sou?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

É com você...


Pra você que pensa estragar tudo, que mete os pés pelas mãos, que sonha alto demais e desaba, que quer ir mas não consegue, que combina mas não cumpri, que tenta acertar e erra, que se culpa por tudo isso:

"Beba! Pois a água viva ainda tá na fonte
Você tem dois pés para cruzar a ponte
Nada acabou!"
(Raulzito)